– Quem é?
– Sou eu.
– O que foi dessa vez?
– O que foi dessa vez?
– Me lembrei que não compramos o presente da tia Ana. A mamãe vai falar, até!
– Não se preocupe. Tenho aqui em casa um par de chinelos que eu ganhei e nunca usei. Vou embrulhar e levo pra ela. O que você acha?
– Perfeito. Escuta, você sabe a medida de água pra fazer a calda do pudim?
– Sei sim, anota aí.
E assim foram mais alguns minutos de ligação para os últimos preparativos da Festa.
Fiz tudo durante o dia pra não atropelar o tempo e aproveitar para gastá-lo comigo. Comprei um vestido vermelho, lindo. Sapatos e bolsa combinando. Quero ficar m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a. Assim, minhas tias terão assunto a noite toda. O difícil é escapar do meu tio que depois da segunda taça de champagne fica abusado. Minhas primas olharão pra mim com inveja, e talvez falem mais de mim do que sobre suas vidas perfeitas.
O perú estava no forno dourando gradativamente.
Demorei o tempo necessário pra ficar linda. O decote em "V" do vestido vermelho realçava os meus seios. Me olhei no espelho e não resisti:
– Se eu fosse me casar, seria com você.
Chamei um táxi e logo desci para esperá-lo.
Quando saí do prédio para entrar no carro, foi como se o mundo estivesse olhando para mim. E ouvi alguém dizendo:
– Nossa, essa é a nora que a minha mãe sempre quis.
Entrei no carro e fomos para a casa da minha mãe.
No caminho todo lembrei do perú. Não daquele que eu havia assado, mas aquele que parecia estar vivo e inteiro dentro do meu estômago. Como doía.
– Chegamos – disse o motorista.
Podia ouvir a confusão do lado de fora da casa, e pelo falatório já estava cheia de gente.
Ouvi o "BLIN-BLON" da campainha.
E como imaginei, tudo parou... o tempo... o trânsito... o relógio... e a família. Todos me esperavam.
– Oi Pedro – eu disse.
E ele gritou da porta:
– Vovó, o tio Alberto chegou.

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