segunda-feira, 13 de julho de 2009

Tarde de Outono

Quando a porta se abriu, logo pude sentir o calor do salão. Aos primeiros passos, vi onde estava pisando, num imenso mosaico de formas que se repetiam como numa melodia. Aquele cheiro amadeirado, um pouco doce que me incitava a entrar naquele lugar a cada passo largo. Meus olhos não desgrudavam daquele desenho do chão, que ficava ainda mais interessante com a luz amarela que invadia pelos janelões.

Assim como o navegador que vai sem rumo encantado pela sereia, percebi que aquela fragrância me chamava a atenção para o outro lado do salão. E me deixei seguir por aquele instinto que até então jamais havia experimentado. Foi quando levantei os olhos e vi uma mulher de cabelos e olhos castanhos, magra e que me seduzia apenas pelo olhar. Mesmo daquela distância, pude perceber que ela não tinha mais do que uns 25 anos. Vestia uma calça justa, preta e uma camisa branca com os primeiros botões abertos, aparecendo a pele clara e sedosa. Eu fui chegando perto, sem conseguir conter a ansiedade de tomá-la em meus braços e poder beijá-la ardentemente.

Os olhares não se desviaram, foi como se o tempo parasse naquele momento. Tudo congelou, menos os nossos sentimentos. Quando estava a alguns passos dela, abruptamente ela abriu a camisa sem sequer desabotoar um daqueles botões brancos forrados. Deixou seus seios à amostra como querendo me presentear. E eu, numa fúria a beijei e a despi ainda mais. Nossos corpos arderam de prazer, se entregaram. Minha boca passeou naquela pele macia e clara. Vi cada curva do seu corpo reluzente sob os raios de sol amarelado de outono que penetravam na sala, pelos janelões.

Nossos corpos cansados e suados se entregaram. Momentos depois estávamos apenas nos acariciando, acalmadas pela saciedade do corpo. Foi quando olhei-a nos olhos, profundamente. Ouvi alguém chamando pelo meu nome, olhei para trás. E acordei.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Festa em Família

– Alô?
– Quem é?
– Sou eu.
O que foi dessa vez?
– Me lembrei que não compramos o presente da tia Ana. A mamãe vai falar, até!
– Não se preocupe. Tenho aqui em casa um par de chinelos que eu ganhei e nunca usei. Vou embrulhar e levo pra ela. O que você acha?
– Perfeito. Escuta, você sabe a medida de água pra fazer a calda do pudim?
– Sei sim, anota aí.
E assim foram mais alguns minutos de ligação para os últimos preparativos da Festa.
Fiz tudo durante o dia pra não atropelar o tempo e aproveitar para gastá-lo comigo. Comprei um vestido vermelho, lindo. Sapatos e bolsa combinando. Quero ficar m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a. Assim, minhas tias terão assunto a noite toda. O difícil é escapar do meu tio que depois da segunda taça de champagne fica abusado. Minhas primas olharão pra mim com inveja, e talvez falem mais de mim do que sobre suas vidas perfeitas.
O perú estava no forno dourando gradativamente.
Demorei o tempo necessário pra ficar linda. O decote em "V" do vestido vermelho realçava os meus seios. Me olhei no espelho e não resisti:
– Se eu fosse me casar, seria com você.
Chamei um táxi e logo desci para esperá-lo.
Quando saí do prédio para entrar no carro, foi como se o mundo estivesse olhando para mim. E ouvi alguém dizendo:
– Nossa, essa é a nora que a minha mãe sempre quis.
Entrei no carro e fomos para a casa da minha mãe.
No caminho todo lembrei do perú. Não daquele que eu havia assado, mas aquele que parecia estar vivo e inteiro dentro do meu estômago. Como doía.
– Chegamos – disse o motorista.
Podia ouvir a confusão do lado de fora da casa, e pelo falatório já estava cheia de gente.
Ouvi o "BLIN-BLON" da campainha.
E como imaginei, tudo parou... o tempo... o trânsito... o relógio... e a família. Todos me esperavam.
– Oi Pedro – eu disse.
E ele gritou da porta:
– Vovó, o tio Alberto chegou.